O advogado, professor e ex-deputado federal Marcelo Cerqueira morreu neste sábado, aos 87 anos, no Rio de Janeiro, vítima de pneumonia seguida de infecção generalizada. A notícia encerra a trajetória de um personagem que atravessou, com protagonismo e riscos pessoais, o movimento estudantil, a resistência à ditadura e a vida institucional do país — do Parlamento à advocacia pública.
Nascido em 1938, no Grajaú, Zona Norte do Rio, Cerqueira ingressou na Faculdade Nacional de Direito da então Universidade do Brasil. Ainda jovem, trabalhou como jornalista, filiou-se em 1957 à Juventude Comunista e participou da criação do Centro Popular de Cultura. Também esteve ligado à UNE, sendo citado como fundador da revista Movimento vinculada à entidade.
Em 1964, assumiu a vice-presidência da UNE após a eleição de José Serra para a presidência. Com o golpe militar, foi forçado ao exílio, passando por países da América do Sul e da Europa. De volta ao Brasil, em 1965, foi preso por 100 dias. Depois, concluiu o curso de Direito e intensificou a atuação na advocacia: segundo o relato, defendeu mais de mil pessoas processadas com base na Lei de Segurança Nacional, sem cobrar honorários, além de atuar em casos de desaparecidos políticos — marca que consolidou sua reputação na defesa de direitos civis e políticos.
Com a abertura política, foi eleito deputado federal pelo MDB em 1978, assumindo o mandato no ano seguinte e, após o fim do bipartidarismo, participou da fundação do PMDB. Em 1981, sofreu dois atentados — contra o carro e a residência — e atribuiu os ataques a grupos de ultradireita contrários à redemocratização.
Depois do mandato, retomou a advocacia e passou a lecionar Direito Constitucional. Em 1985, foi consultor jurídico do Ministério da Justiça no governo José Sarney, transferindo-se para Brasília. No mesmo ano, concorreu pelo PSB à Prefeitura do Rio e terminou em quarto lugar. Nos anos seguintes, ocupou funções na administração pública, incluindo procurador-geral do Incra (1992–1993) e chefe da procuradoria do Cade até 1994.
Na década de 1990, destacou-se como crítico da privatização da Companhia Vale do Rio Doce, movendo ações judiciais sobre o processo. Também presidiu o Instituto dos Advogados Brasileiros e publicou obras jurídicas, políticas e literárias, entre elas “O Controle do Judiciário – doutrina e controvérsias”. Marcelo Cerqueira deixa três filhas.
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