Home Carnaval Carnaval do Rio tem 731 presos e queda em crimes contra turistas — mas “melhor dos últimos anos” não combina com custódia que solta rápido
CarnavalPolíciaPolíticaRio de JaneiroSegurançaSegurança

Carnaval do Rio tem 731 presos e queda em crimes contra turistas — mas “melhor dos últimos anos” não combina com custódia que solta rápido

Compartilhar
Compartilhar

O balanço oficial do Carnaval 2026 no Rio de Janeiro trouxe números que, à primeira vista, parecem uma vitória da segurança pública: 731 pessoas presas durante o período e queda de 43,5% nos registros policiais envolvendo turistas em comparação com 2025. Também houve redução de 32,8% em furtos e roubos de celular e em crimes contra transeuntes. Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (23) no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC).

O secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, comemorou e cravou: foi o “melhor carnaval dos últimos anos” no tema segurança. Mas a própria fala do secretário revela a contradição que precisa entrar no debate: “quase 30% desses presos já estão na rua por conta das audiências de custódia”. Ou seja: o Estado prende, divulga o número como troféu — e, pouco depois, parte relevante volta para a rua. A conta fecha mal para a sensação de proteção do cidadão e do turista.

A Polícia Militar apresentou recortes que ajudam a entender o tamanho da operação. A PM contabilizou 551 presos (alta de 10%), 86 adolescentes apreendidos (alta de 18%), 60 armas apreendidas (alta de 46%) e 140 simulacros (alta de 208%). A recuperação de celulares teve um salto expressivo: 112 aparelhos recuperados, alta de 211%.

Os dados, porém, pedem leitura crítica. Se houve menos registros envolvendo turistas, por que tanta apreensão de arma, simulacro e aumento de prisões? Uma hipótese é que a repressão foi mais intensa; outra, que a dinâmica do crime segue viva e se adapta. E sempre vale lembrar o ponto que estatística nenhuma resolve sozinha: subnotificação. Em festas gigantes, muita gente não registra ocorrência por achar “perda de tempo”, por ter viagem marcada ou por falta de orientação imediata.

No trânsito, a Operação Lei Seca fez 44 ações, abordou 4.658 condutores e autuou 858 por alcoolemia — 18,4% dos abordados. O índice, por si, já mostra como o risco é naturalizado no período. No Sambódromo, cerca de 100 motoristas de alegorias foram testados e nenhum foi flagrado alcoolizado — um alívio, mas que não diminui a urgência de fiscalização fora do circuito mais controlado.

Corpo de Bombeiros registrou 1.864 salvamentos marítimos; mais de 500 foram feitos pelo grupamento responsável por Barra da Tijuca e Recreio. É um número alto, que reforça que Carnaval também é operação de saúde, prevenção e resposta rápida — e que o custo humano de “um descuido” pode ser enorme.

O Rio precisa, sim, reconhecer avanços quando eles existem. Mas também precisa parar de vender superlativos (“melhor carnaval”) enquanto admite, na mesma frase, que boa parte dos detidos sai rapidamente. Se a mensagem para quem comete crime é “você pode ser preso e voltar em horas”, a política pública vira um carrossel: gira, aparece no balanço, mas não freia a reincidência.

Compartilhar

Escreva um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também

Motta quebra promessa de campanha ao ignorar pedido de transparência na votação relâmpago de benefícios aos partidos

Motta quebra promessa de campanha ao aprovar votação relâmpago de benefícios aos...

Smurfing: Entenda a Técnica de Lavagem de Dinheiro que Levou à Prisão de Deolane Bezerra

Smurfing é técnica de lavagem de dinheiro que fracciona valores. Entenda como...

PGR continua negociações com Vorcaro enquanto PF rejeita delação por falta de transparência

PGR mantém negociações com Vorcaro para colaboração premiada, enquanto PF recusa delação...