A nova ofensiva da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), deflagrada nesta segunda-feira (23), mira uma quadrilha interestadual acusada de atuar em três frentes que se alimentam mutuamente: furto de cabos, receptação e lavagem de dinheiro. A ação cumpre mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Tocantins. No RJ, há diligências na capital e em Nilópolis, Mesquita e Itaguaí, na Baixada Fluminense. Tudo dentro da Operação Caminhos do Cobre, iniciativa que tenta atingir não só quem “puxa fio”, mas quem dá destino e aparência legal ao crime.
O caso expõe o óbvio que muita gente finge não ver: o furto de cabos não é “pequeno delito”, é uma indústria. E só vira indústria porque existe demanda e existe porta de entrada. Quando a polícia descreve uma organização “financeiramente sofisticada”, está dizendo que o esquema já ultrapassou há muito tempo a figura do ladrão improvisado. A quadrilha, segundo a investigação, tinha divisão clara de funções: um núcleo estratégico (liderança), um núcleo operacional (execução e transporte), um núcleo de receptação (estabelecimentos que revendem) e um núcleo financeiro (lavagem).
O modo de agir reforça a profissionalização: os furtos ocorreriam principalmente de madrugada, com caminhões usados para arrancar cabos subterrâneos e motocicletas fazendo o papel de batedores, monitorando movimentação policial e até bloqueando vias. Depois, o material seguia para locais de apoio, passava por fracionamento e era vendido por ferros-velhos e empresas de reciclagem já vinculadas ao grupo. Na outra ponta, a engrenagem “limpava” o dinheiro com notas fiscais falsas e transferências sequenciais para fragmentar valores e dificultar rastreio.
O que torna tudo mais grave é a dimensão do dinheiro. A DRF aponta movimentação de mais de R 97 milhões movimentados pelo “principal investigado”, valor incompatível com a capacidade econômica declarada. E uma das empresas centrais no esquema teria registrado movimentação superior a R$ 90 milhões. Não se trata, portanto, apenas de furtar metal: trata-se de transformar infraestrutura pública e privada em caixa eletrônico.
E aqui entra a crítica inevitável: esse crime não existe sem receptação — e receptação, no Brasil, segue sendo tratada como “efeito colateral”, quando é o motor. Enquanto ferros-velhos e empresas conseguem operar com fiscalização insuficiente, rastreabilidade fraca e punição que não intimida, a conta vai para o cidadão: rua sem iluminação, sem semáforo, sem internet, sem telefonia, serviços interrompidos e custo repassado.
A operação desta segunda também busca recuperação patrimonial, com pedidos de sequestro de veículos e imóveis e bloqueio de ativos financeiros, justamente para sufocar o que mantém o esquema de pé: o lucro. A DRF afirma que, desde setembro de 2024, foram feitas mais de 430 fiscalizações em ferros-velhos, com cerca de 200 prisões de responsáveis por estabelecimentos nessas ações, além da apreensão de cerca de 300 toneladas de fios de cobre e materiais metálicos. Também houve pedido de bloqueio de aproximadamente R$ 240 milhões.
O recado é claro: não basta “prender quem furta” e fazer foto de apreensão. Se a repressão não alcançar quem compra, quem emite nota fria, quem lava, e quem lucra, o cabo volta a sumir na próxima madrugada. O crime só existe porque há mercado — e o mercado, quando se beneficia, vira cúmplice.
Fonte: O Globo
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