Artigo de Oficial de Náutica analisa como a gestão de pessoas a bordo deixou de ser apenas hierárquica para se tornar estratégica na segurança da navegação.
Por Redação
A imagem do comandante de navio isolado, autoritário e distante de sua tripulação está ficando no passado. No complexo ambiente da Marinha Mercante, onde o isolamento e os riscos são constantes, a liderança evoluiu de uma simples imposição de patente para uma sofisticada gestão de pessoas. É o que aponta o estudo “A Liderança em um Navio Mercante: Aspectos e Desafios”, de autoria do Oficial de Náutica Rony Elias da Silva Lima.
O trabalho destaca que o navio não é apenas um meio de transporte, mas uma organização complexa que exige modelos de administração modernos, focados na valorização do capital humano e na adaptação a situações de crise.
Do “Chefe” ao Líder Estratégico
Segundo o estudo, a antiga visão de Recursos Humanos, onde tripulantes eram apenas peças de uma engrenagem, cedeu lugar à Gestão de Pessoas. Hoje, a inteligência, a personalidade e as habilidades de cada marinheiro são vistas como ativos vitais para o sucesso da viagem.
“Se um líder a bordo de um navio não estiver pronto para a função, os membros da tripulação procurarão outro líder, situação que leva a autoridade a uma interrupção”, destaca o texto, alertando que a perda do comando pode comprometer a segurança da carga e da vida humana no mar.
Os Estilos de Comando
A reportagem baseada na pesquisa identifica que não existe um modelo único de liderança, mas sim perfis que podem (e devem) ser alternados conforme a necessidade. Baseado nas teorias de Chiavenato, o estudo descreve os perfis comuns a bordo:
- O Autoritário: Centraliza decisões e exige disciplina cega. Embora tradicional, pode desmotivar a equipe ao ignorar sugestões.
- O Democrático: Estimula a participação e ouve a tripulação. É apontado como o ideal para o engajamento e clima a bordo.
- O Situacional e Emergencial: Fundamental no mar. É o líder que assume a postura necessária conforme o perigo ou a urgência do momento.
- O Indeciso ou Liberal: Considerados perigosos, pois a falta de pulso ou a omissão em decisões difíceis geram insegurança e conflitos entre a guarnição.
Segurança e Legislação
A liderança no mar não é apenas uma questão de estilo, mas de dever legal. O artigo ressalta que a autoridade do comandante é respaldada pela Portaria nº 111 do Ministério da Defesa, que atribui a ele a responsabilidade não só de cumprir leis, mas de manter um programa contínuo de treinamento e disciplina.
A comunicação eficiente é citada como a principal ferramenta de segurança. Uma tripulação que entende o plano de viagem e se sente ouvida é capaz de antecipar perigos e evitar cadeias de erros que levam a acidentes.
Conclusão: O Líder Adaptável
A conclusão do estudo de Rony Elias aponta que a eficiência no transporte marítimo moderno depende de comandantes que saibam transitar entre os modelos de liderança. Em momentos de calmaria, o gestor democrático fortalece a equipe; em momentos de tempestade ou risco iminente, o líder situacional garante a sobrevivência.
O navio mercante moderno, portanto, deixa de ser visto apenas como local de transporte de carga para ser reconhecido como um ambiente de formação de líderes, onde a hierarquia convive com a colaboração mútua.
Sobre o Autor do Estudo: Rony Elias da Silva Lima é Oficial de Náutica graduado pelo Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar (CIABA) e em Análise e Desenvolvimento de Sistemas pela Universidade Estácio de Sá.
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