Um vídeo de audiência judicial voltou a repercutir nas redes sociais e levantou um debate urgente: como o sistema de Justiça lida com pessoas vulneráveis diante de uma câmera, sob pressão e com pouco espaço para explicações. Nas imagens, o juiz Cristiano Cesar Ceolin, da 1ª Vara de Mairiporã (Grande São Paulo), interpreta como deboche a expressão facial de uma testemunha e a repreende: “Tá dando risada por quê? Tem alguma coisa de engraçada aqui?”. A mulher nega — e um laudo médico aponta que ela tem biprotrusão maxilar, condição que projeta os lábios e pode dar aparência de sorriso mesmo sem qualquer intenção.
A testemunha é Fátima Francisca do Rosário, 61 anos, trabalhadora doméstica. Ela participava por videoconferência em um processo que discutia a administração dos bens de uma idosa de 94 anos. Um parente alegava que a idosa teria lapsos de memória e não conseguiria gerir o próprio patrimônio. Fátima disse ter visto a senhora lúcida e conversando normalmente, contrariando a tese de incapacidade. Em vez de o depoimento seguir com o cuidado que se espera quando se ouve uma pessoa simples e idosa, a audiência se transforma em um constrangimento público.
O episódio não é “apenas” uma gafe: é sintoma de despreparo e de uma cultura institucional que, muitas vezes, presume má-fé antes de ouvir com atenção. Em audiências online, isso tende a piorar. A câmera reduz sinais, o áudio falha, o atraso irrita — e a consequência recai, quase sempre, sobre quem tem menos recursos para se defender. Quem não domina linguagem jurídica, quem depende do fórum para acessar internet, quem tem uma condição física visível, vira alvo fácil de julgamento apressado.
O caso ganha contornos ainda mais sérios porque, após a audiência, o juiz determinou o envio do episódio à Polícia Civil para apurar possível falso testemunho. Ou seja: além da humilhação, houve o risco concreto de uma cidadã ser empurrada para uma investigação criminal por uma interpretação equivocada de sua aparência. Mais tarde, o Ministério Público pediu o arquivamento, confirmado em janeiro, mas a marca do constrangimento permanece — e o recado para outras testemunhas também.
A defesa de Fátima pediu que o magistrado fosse considerado suspeito, alegando postura hostil, preconceituosa e falta de imparcialidade. O Tribunal de Justiça de São Paulo, segundo a reportagem, ainda não havia se manifestado oficialmente. Enquanto isso, o vídeo circula como prova de algo que não pode ser normalizado: o acesso à Justiça não pode depender de “parecer respeitoso” na tela, nem de ter um rosto que o sistema entende sem perguntar.
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